quinta-feira, 16 de outubro de 2008

São Paulo e Corinthians em “Linha de passe”, de Walter Salles

Sempre achei o Walter Salles um bom diretor de cinema até os 15 minutos finais de seus filmes. Até os 30 do segundo tempo, o cineasta costumava apresentar, com razoável competência, produções de temáticas sociais, com nítida preocupação fotográfica, tratadas com delicadeza, embora em alguns (ou muitos) momentos flertando com a emoção fácil. Mas sempre a coisa começava a desandar até que, no final, vinha a morte súbita do filme.
A cena mais representativa desta “perda de mão” está em “Diários de Motocicleta”, uma saga do jovem Ernesto, futuro Che Guevara. Apesar das críticas que apontaram certa incoerência na estrutura narrativa do longa, tratou-se de contar, de forma equilibrada, uma aventura de meninos argentinos bem-nascidos e ávidos por um pouco de emoção em viagem pela América Latina. Mas, claro, “o jogo só acaba quando termina”. No clímax do filme, quando Ernestinho começa a se tornar Che, o asmático personagem, no dia de seu aniversário, arrisca-se heroicamente (para não dizer messianicamente) atravessando a nado o riacho de um leprosário peruano – que separa os sãos dos doentes –, embalado por uma trilha sonora de intenções “novelisticamente” dramáticas, para comemorar, do outro lado, o seu dia com os segregados.
Assim, quando fui assistir ao “Linha de passe”, confesso que esperava deslizes parecidos. Ainda mais porque que se tratava de uma história de drama familiar na periferia de São Paulo: quatro irmãos e uma mãe grávida do quinto filho. Mas errei no meu prognóstico. O filme foi conduzido de maneira muito diferente da costumeira, equilibrada. Não há, na linguagem do filme o sentimentalismo de sempre. Os personagens, ao contrário, são duros, contraditórios, humanos.
Porém, não se trata, aqui, de analisar as questões técnicas inerentes à produção cinematográfica, mas sim a presença do tema do futebol na trama do filme. E esta se deu de maneira precisa: O enredo, pode-se dizer, desenha alguns tensos momentos de contatos dos membros da acidentada família paulistana com o outro lado da sociedade, a classe média, as elites, no decorrer de suas trajetórias. Os personagens, desse modo, encontram pela frente a dura tarefa de forjar as suas sobrevivências e identidades em meio a uma composição social caótica e essencialmente contraditória. O futebol é, então, habilmente concebido como pano de fundo exemplar destas tensões. E, não por acaso, o clássico escolhido para tanto é São Paulo e Corinthians, times que, no imaginário futebolístico, representam tradicionalmente os contrastes riqueza/pobreza, elite/povo, ou, neste caso mais adequadamente, centro/periferia.
Neste aspecto do filme que enfatiza o futebol, a personagem central é certamente Cleusa, a mãe. Corintiana fanática, em muitos “takes” aparece no estádio em meio à fiel torcida. Suas desventuras particulares, como a quinta gravidez e a constante ameaça de desemprego, são permeadas por um drama coletivo que ela personifica: a luta do Corinthians para não ser rebaixado à série B do Campeonato Brasileiro. Se partirmos do que aconteceu ao time do parque São Jorge ao fim da competição, poderíamos ler no desfecho do filme a derrota das classes subalternas, representadas alegoricamente pela família paulistana. Mas, é bom que nos lembremos que o jogo que aparece nas telas onde “Linha de passe” é exibido terminou com o placar de 0x1, gol de Betão, o que garante um final de uma esperança apenas sugerida, e um belo filme.

2 comentários:

Felipe Carrilho disse...

Esse foi pra você, David.

Maurício Rodrigues Pinto disse...

Caro Felipe, a sua análise ao modo de fazer filmes do Walter Salles é fantástica.
A partir da sua visão sobre como o futebol é usado na construção das tensões do filme, fico mais seguro para dar um voto de confiança ao diretor e ainda mais curioso para conferir Linha de Passe.
Parabéns pelo texto!