sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

Novo nome para o blog

Um amigo meu disse que o nome do blog deveria ser trocado por "Visões sobre o Coringão e outros temas, obviamente menos relevantes". Desconfio que seja por causa do teor dos meus textos. Não há dúvida de que o título seria adequado até o momento, embora seja apenas uma piada.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

A mística corintiana

Cada time de futebol possui uma mística própria, que, no limite, acaba por defini-lo. Podemos entender o termo "mística", da maneira como o empregamos nos assuntos futebolísticos, como um conjunto de imagens e ideias que povoam o imaginário de um determinado clube e de elementos relacionados a este, como a sua torcida, por exemplo.
A mística corintiana é bastante curiosa e original. O Corinthians é o único clube brasileiro calcado no culto ao sofrimento e à dor. A alma corintiana transforma sentimentos considerados indesejáveis em virtude. Não é à toa que bradamos nas arquibancadas: "Corintiano, maloqueiro e sofredor/Graças a Deus!". Artifícios como este, lançados pela torcida corintiana, parecem responder à necessidade de suportar as desilusões futebolísticas que marcam a trajetória do clube do Parque São Jorge e a Fiel. Mas, a originalidade perturbadora da questão está no fato de que reações desse tipo não apenas representam uma forma de resistência, mas, principalmente, fundamentam a identidade e a grandeza do Corinthians. Vale lembrar que foi no período de quase 23 anos em que o alvinegro esteve sem conquistar títulos de expressão que a torcida corintiana mais cresceu.
Tenho 27 anos de idade e, portanto, vivi intensamente o grande momento corintiano do final da década de 1990 e do início dos anos 2000. Um time que possuía um meio de campo formado por Rincón, Vampeta, Marcelinho e Ricardinho - todos no auge de suas carreiras - era de encantar qualquer um. E, de fato, muitas alegrias comemorei nesse período. Entretanto, passadas as festividades, uma sensação peculiar sempre me assaltava. Era uma espécie de ressaca moral, um sutil sentimento de culpa pela vitória alcançada. Desconfio que a mística corintiana tem muito a ver com isso.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2009

A reação alviverde

A atual tentativa de promover o clássico entre o Corinthians e o Palmeiras, capitaneada pela diretoria alviverde, parece corroborar a análise que fiz no meu texto "A maior rivalidade do futebol paulistano do momento", em que apontava o confonto Corinhians X São Paulo como o maior clássico da cidade atualmente.
A seguinte frase do diretor de futebol palmeirense Genaro Marino, publicada na edição de hoje do jornal Lance, é sintomática neste sentido:
"O projeto se chama Dérbi. Os marketings estão negociando. Ainda não está definido, mas é um dos maiores clássicos do futebol mundial e o Palmeiras entende que é preciso engrandecer esse jogo em função de tudo o que ele representa".
Fica claro, assim, que o Palmeiras e o São Paulo duelam por uma vaga no confronto com o Corinthians, objetivando o reconhecimento social necessário para legitimarem-se como um dos dois clubes mais representativos da cidade, o outro sendo o Timão.
Para esclarecer, ainda, algumas colocações que fiz em meu post anterior, gostaria de enfatizar que a dicotomia entre povo e elite, exemplificada pelo clássico Corinthians X São Paulo, se dá certamente (pelo menos) no nível do imagiário social, não se verificando empiricamente na composição socioeconômica de ambas as torcidas.

terça-feira, 17 de fevereiro de 2009

Sobre a nova maior rivalidade paulistana e a perda de auto-estima corinthiana

Estava tentado a escrever algo sobre o clássico de gosto duvidoso, do último domingo. No texto do Felipe, tive a inspiração para tratar de outro tema que martela a minha cabeça há tempos.
Não quero me estender mais sobre o jogo de domingo, pois muito já foi dito sobre a imprudência das diretorias que refletiu no comportamento de torcedores, policiais e dos jogadores em campo, mais preocupados em demonstrar virilidade em detrimento do futebol.
Em cima de uma polêmica vazia, os dirigentes de Corinthians e São Paulo, conseguiram criar uma atmosfera de guerra para o jogo. E ainda dizem que os nossos dirigentes não sabem promover espetáculos...
Mas, mais especificamente, sobre a rivalidade que envolve São Paulo e Corinthians, tem me chamado a atenção a postura da recém-eleita diretoria alvinegra que, frequentemente, tem feito comentários depreciativos (ofensas mais adequadas às arquibancadas como o famoso "Bambi", "Meninas do Morumbi", ou simplesmente "Elas") a tudo o que se refere a equipe do Morumbi.
O que está em questão aqui não é o gosto pelo chulo por parte da cúpula corinthiana. Mas o que me chama a atenção é a necessidade constante da afirmação em cima da depreciação do outro.
Sempre lidei com o fato do Corinthians ser o alvo de gozações e da inveja dos rivais. Tanto é assim que se preconiza que existem duas grandes torcidas em São Paulo: os corinthianos e os anti-corinthianos.
No meu entender, o corinthiano é um orgulhoso por natureza, sem necessitar cair no lugar-comum de ofender o outro. Até porque não é necessário, pois o que mais irrita os rivais é a capacidade do corinthiano não se rebaixar por pior que fosse a situação. O corinthiano é um indivíduo dotado um sentimento de superioridade, até mesmo de magnanimidade frente aos demais.
Em suma, parto do princípio de que o indivíduo que torce pelo Corinthians, não o faz por conta de vitórias e títulos conquistados. Tem orgulho de ser corinthiano, pelo simples fato de se sentir torcedor do Corinthians. E esse detalhe tão pequeno, tem um grande potencial de incomodar a muitos, e constituiu-se no diferencial que faz do Corinthians um time tão singular entre os considerados grandes.
Sendo assim, quando vejo Andres Sanchez e seus asseclas fazendo gracejos e ofendendo um rival, revelando uma acentuada preocupação com o sucesso alheio, só tenho a lamentar.
Tenho certeza que não serão esses pulhas que vão conseguir apequenar o Corinthians. Mas com atitudes como essa, eles fazem de tudo para tornar o Corinthians em um time mais comum...

A maior rivalidade do futebol paulistano do momento

Nos últimos tempos tenho ouvido muito que a rivalidade entre o Corinthians e o São Paulo é hoje a maior de Estado, superando, inclusive as emoções despertadas pelo confronto Timão X Palmeiras.
Tal afirmação é, no mínimo, curiosa. Do ponto de vista histórico, não tenho dúvidas de que tanto a longevidade dos times dos parques São Jorge e Antártica, quanto as trajetórias inicialmente coincidentes de ambos - o Palestra originando-se de uma dissidência corintiana - além da identificação de seus torcedores com as classes subalternas de nossa sociedade garantem, de fato, uma supremacia ao clássico na tradição dos confrontos entre clubes de cidade de São Paulo.
Por outro lado, não podemos nos esquecer de que a questão levantada aqui é de apontar a qual a maior rivalidade existente atualmente no futebol paulistano. Se pensarmos na polêmica gerada pelo recente episódio da destinação de apenas uma pequena quantia de ingressos para a torcida do Corinthians no último clássico contra o time do Morumbi por parte da diretoria do São Paulo, constataremos, certamente, um grande acirramento da rivalidade entre as torcidas de ambos os clubes. Mas, não sei se um acontecimento pontual, como este, seria suficiente para demonstrar a preponderância do clássico, dito majestoso.
Lendo, na internet, uma pesquisa que apontava os 10 maiores clássicos do futebol mundial, fui surpreendido ao ver, encabeçando a lista, o confronto escocês Celtics X Rangers. Um clássico escocês em primeiro lugar?! Onde estavam os confrontos italianos, alemães, argentinos, ou mesmo brasileiros? Analisando com mais calma, porém, percebi que o que justificava a colocação privilegiada de tal jogo era, na verdade, uma querela religiosa que perpassava o embate entre os dois times desde as suas primeiras partidas. O Celtics fora fundado por padres católicos, que quiseram homenagear os irlandeses que moravam no leste de Glasgow, e o Rangers fora fundado por protestantes. Daí a extrema rivalidade que resultava tanto das paixões futebolísticas, quanto religiosas conjugadas.
Esta curiosidade me fez repensar o caso das rivalidades paulistanas. Talvez Corinthians X São Paulo seja hoje o maior clássico da cidade mesmo. Se, por um lado, os tricolores estão aquém do Palmeiras em relação à duração histórica de sua participação nos grandes jogos da cidade, por outro lado, Corinthians X São Paulo é um clássico que, no imaginário social, se reveste de um caráter classista, opondo pobres e ricos, povo e elite. Tendo a admitir, portanto, que a ideia de luta de classes, sugeria pelo jogo, justifica a ascensão do São Paulo à categoria de clube participante do maior clássico paulistano. Mas, não posso deixar de notar quão tortuosos são os caminhos de glória tricolores, não?